ENCHENDO O SACO

Deste o início da vida, ainda na primeira infância, por necessidade de fazer de nós criaturas civilizadas, nossos pais cuidadosamente vão enchendo o saco das negatividades.
São as críticas, os nãos, as repreensões ou repressões, em que sempre se salientam nossos erros.
Os acertos e façanhas, esforços e vitórias parecem não receber a mesma atenção.
Por uma questão cultural, os acertos são vistos como obrigações das crianças e jovens, e, como não são louvados e levados em conta, o saco das positividades vai ficando vazio.
Com o tempo, nossos erros passam a ser o ponto de referência para todas as coisas.
E isso é desastroso numa personalidade em formação.
Querendo nos fazer fortes, nos enfraquecem, acentuam em nós apenas erros, fracassos e desacertos.
Claro que os pais sempre agem com boa intenção.
É no louvável intuito de nos ajudar que nos atrapalham tanto.
A criança faz cinco coisas certas e os pais, quando tinham de ficar esfuziantes, parece que tem um bloqueio para elogiar.
Às vezes a criança precisa fazer oito ou mais acertos, daqueles muitos bons, para então, aí sim, receber um elogio - ainda que fraquinho...
Mas se, depois de tantas coisas certas, cometer um único erro, recebe uma baita bronca com todas as letras.
Fica difícil para a criança suportar esse desequilíbrio e manter em evolução o seu caráter de vencedora.
Um exemplo nítido é a entrega do boletim escolar.
O jovem chega em casa com as notas da escola.
Conseguiu notas boas na maioria das matérias, mas uma delas, apenas uma nota baixa, faz o pai se aborrecer muito.
O pai esquece que no mesmo boletim existem outras oito notas altas.
Mas o elogio não vem.
Dessa maneira o pai enche o saco das negatividades de seu filho, que, depois de dez, quinze minutos, estará realmente com o saco cheio.
No mundo, a ordem é falar mal.
Todos derrotam todos, todos anulam todos - o que pode restar para oferecer a não ser a amargura e o sofrimento da derrota que nos impingiram desde crianças?
Se você tem uma bacia com abacaxis, como vai poder dar uma maçã?
Ninguém dá o que não tem.
Mas não podemos sair por aí apenas dando o que nos deram.
Temos de reciclar isso tudo.
De um lado, o saco das negatividades passa a vida transbordando; de outro, o saco das positividades fica sempre magrinho, quase vazio.
O que falta em nossa sociedade é o exercício do elogio, que encheria o saco das positividades.
Mas quem elogia?
Quase ninguém!
Portanto, não se recebe elogio.
E, se não se recebe elogio, não se elogia.
Somente a crítica tem lugar de destaque em nossa sociedade.
E assim caminha a humanidade...
Há que se inverter esse processo de derrota e injetar na sociedade um elemento de progresso e de conquista.
Cada vez que você elogia uma pessoa é um estímulo para ela viver e um incentivo a fazer com que queira repetir o ato que lhe trouxe conforto e gratidão.
Esse pequeno contaminado por tal vírus é positivo e estimulante.
E é preciso coragem, porque o elogio implica lançar a pessoa para cima e às vezes ela pode subir mais alto que você; porém, se você ficar preocupado com o fato de que ela vai mais alto, é porque você mesmo se colocou num nível muito baixo.
O elogio é um ato de desprendimento e de confiança em si mesmo.
Quem se sente superior elogia muito; quem se considera para baixo fica mais cioso desse ato de glória; quem nunca elogia talvez nem se encontre mais.
O elogio talvez seja o ato de maior força na sociedade e deveria ser mais usado.
Em qualquer lugar, é fulminante.
Seja em casa, seja na empresa, seja na escola.
Se alguém começar a exercer mais o ato do elogio, pode passar a ser um ímã em qualquer ambiente - todos querem ficar ao seu lado.
A felicidade, na verdade, está no fato de as pessoas tirarem o maior proveito das ocorrências do dia-a-dia, salientando ao máximo as coisas boas que acontecem e menosprezando as coisas ruins.
A felicidade está na nota que se dá a cada coisa.
Se você dá nota alta a um acontecimento ruim, claro que vai sentir-se mal, mas se der notas altas somente a coisas boas, viverá sempre feliz.
As pessoas positivas são otimistas porque conseguem otimizar a positividade.
O resgate que fazemos com as pessoas está muito dentro desse contínuo encher o saco da positividade, salientando as inúmeras vitórias que conquistam no seu dia-a-dia de trabalho com o corpo.
Serão tantas as vitórias em seu treinamento que essas ocorrências enchem o saco outrora vazio.
O negócio é encher o saco de seus filhos, encher o saco de seus alunos, encher o saco de seu vizinho, encher o saco de todo mundo.
Mas o esforço é no sentido de encher o saco certo.
Encham o saco de seus funcionários e percebam como eles se tornam mais eficazes e felizes.
Cara feia, mau humor, críticas em demasia só vão encher o saco errado.
Por isso, quando perguntam por que meus pupilos vão sempre ao encontro do sucesso, eu respondo: "Porque eu encho o saco de todos eles..."


Nuno Cobra(*) - este texto foi retirado, na íntegra, do livro A SEMENTE DA VITÓRIA, de autoria de Nuno Cobra, 29ª. Edição - Editora Senac - São Paulo

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